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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

músicas do BTS como conceitos de Mark Fisher: sim, eu estou doida

Imagens reais de um simpósio sobre como BTS destruiu o pop imperialista. Universidade de Goldsmiths, Londres, 2022.


Desde que eu cai no buraco do BTS (gente, repito: que delícia! tô amando! motivo principal hehe), eu criei uma linha do tempo alternativa em que alguém mandou Cypher pt. 3 para o Mark Fisher e a tongue technology do Yoongi derreteu o cérebro dele e pronto! Ele entrou para a facção mais perigosa do multiverso: ARMY.

 

Com este cenário em mente, essa que vos escreve teve a brilhante ideia de lançar uma série de posts de música dos Bangtans e os conceitos correspondentes do nosso crítico favorito. 

De nada e desculpa!

Pra começo de conversa, vou argumentar porque Fisher poderia ser ARMY. 

Motivo 1: BTS enquanto mito. De underdog que virá pica das galáxias, indo contra o sistema (monopólio das três gravadoras gigantes do k-pop), eles mudaram o jogo completamente. Ou seja, é uma história de Superação de um bando de meninos completamente doidos, porém ambiciosos, com um desejo só: fazer a Revolução. kkkkk okay, fui meio longe, mas eu já tô meio que preparando vocês para esperar esse tom e besteiras desse tipo nos milhares de caracteres que vão ser despejados neste blógue.

Mito ou não, a história do bts é bem interessante: verdade que começaram em uma agência/gravadora independente* e agora é a boyband mais famosa do mundo, com a idade dos fans variando entre 8 e 80 anos. 

Motivo 2: a sinergia coletiva rizomática entre eles e ARMY, mostrando que nem sempre a multidão é perigosa, ao contrário da opinião de muitos demagogos por aí. Ou seja, há um exército todo a nossa disposição (gente, bora construir um movimento socialista com fãs de k-pop, não temos nada a perder a não ser nossos grilhões). 

Motivo 3: como um bom audiófilo, Fisher piraria com as músicas porque a paleta sonora híbrida vai de ambient/indie rondológico ("134340"), UK Garage ("Trivia: Just Dance"), passando por d&b ("I'm Fine"), old skool hip-hop (duh, músicas da rap line) e neo soul ("Singularity"). Nessa bagunça totalmente organizada tem até umas pitadas de ritmos e timbres latinos ("Blood, Sweat & Tears" e "Airplane pt. 2") e formas musicais tradicionais coreanas ("IDOL", "DDaeng", "Daechwita"). 

Ai, BTS é bom demais, pqp. 

Ah! Outra coisa que derreteria o coração do Fisher é o fato de eles terem sido considerados feios** quando debutaram e bregas por fazerem rap. Como o mundo dá voltas, não? (Tá tocando Cypher pt. 4 aqui).

Sem falar dessa campanha toda do Love Yourself que traria uma lágrima nos olhos do crítico inglês canceriano: "isso mesmo, o capital fala que a gente não serve pra nada, mas foda-se, amem a si mesmos!". Tá, eu pirei um pouco agora (de novo!), mas acho que ele compararia essa brisa com aquela atitude desafiadora mod de se vestir bem e praticar o auto-cuidado como estratégias anticapitalistas. 

Mas enfim. Continuando.

Fisher os acharia punk, e de fato, podemos traduzir BTS para o panteão punk se os considerarmos como um amálgama das principais tendências exemplificadas por bandas como Buzzcocks (melodias pop irresistíveis), The Jam/The Clash (consciência de classe e ódio de classe) e Sex Pistols (um grande foda-se para o complexo militar-industrial-de entretenimento). 

Especulando um pouco sobre, hmm, as preferências, acho que o bias dele seria o Suga, porque ele é tipo um Mark E. Smith*** versão idol (um dos heróis do Fisher) e o bias wrecker seria o J-hope, porque ninguém resiste a esse raio de sol (evidências: Outro: Ego e a mixtape Hope World, verdadeiras obras de arte). 

Yoongi mandando a real. Ele é um gostoso, né?

Mas no fundo, no fundo, como toda boa ARMY ele seria OT7. Ele adoraria, além do Suga e J-hope (FISHER FANFIQUEIRO SOPE BIASED):

  • A inteligência e o comprometimento ético do nosso idol comunista favorito, RM; 
  • a voz doce e sobrenatural da nossa femme fatale irresistível, Jimin; 
  • o disposição tranquila de tradição spinozista e a beleza etérea de Jin; 
  • o sorriso de coelhinho (Fisher estaria propenso a ser uma fangirl como qualquer uma de nós) e a voz arrepiante de Jungkook; 
  • e a irreverência excêntrica e dândi do V. 

Sobretudo, iria adorar os passos ninjiskianos que o grupo executa com tanta precisão e alegria e os sons delirantes de suas músicas.

O motivo subjacente a esse post, se já não tenha ficado claro, é: na real, tudo isso é uma homenagem a um pensador que ajudou a me formar e aos motivos atuais de minha alegria (O sorriso do Teteco BTS! BTS! BTS!).

Okay, uma nota sobre a metodologia: literalmente escutei as músicas e fucei nos escritos do Fisher. Só isso. Basicamente, vou combinar músicas do BTS que exemplificam os conceitos que considero mais interessantes, e sei lá, acho que dissertar um pouco sobre eles? 

Vamos ver se eu consigo porque eu ando completamente mais maluca do que o normal. 

Ah, usei essa "tabelinha" de guia:

créditos a @k_punk_unlife

O próximo post, por ser uma introdução, é sobre o conceito de modernismo pulp, que era o pilar do projeto teórico-estético do Fisher. Para os próximos (aviso: sujeito a alterações) quero falar sobre:

  • realismo capitalista (BTS destilando ódio de classe, sexy);
  • hauntology/assombrologia (spotlight no agust-d, uhul);
  • e desejo pós-capitalista (comunismo ácido! dissertação de 10.000 palavras sobre Telepathy! eba!). 

Vão ter alguns interlúdios com certeza, porque o tio Fisher era muito produtivo para criar conceitos, mas já fica o alerta de spoiler: vai ter post sobre músicas de amor (uwu), um ensaio sobre a escolha estética pelo hip-hop enquanto sonoridade e conceito principal do grupo, e posts especiais sobre cada membro da rap line (gente, vou tentar me segurar no do Namjoon, meu gêmeo e alma gêmea. Te amo, bro!).

Bom, só uma palhinha sobre o Mark Fisher antes. 

O que informava o senso crítico e estético do tio Mark era se o objeto, obra, etc. em questão (sempre considerado de maneira integral: forma e conteúdo articulados) rompia com o status quo. Se ele rasgasse o tecido da alienação e revelasse o sinistro e loucura subjacentes à realidade surreal produzida pelo hipercapitalismo. Em outras palavras, ele gostava é de desloucar a alienação de cada dia. 

Por isso, tal música, filme, série tinha que ser intenso e meticuloso, estranho e popular para cortar essa cortina de névoa. Porque era justamente isso o que tinha capturado sua atenção nos últimos anos de sua vida: como a gente vai sair dessa. Ou melhor, como podemos criar o desejo para o pós-capitalismo, criar um plano de vitória, ganhar o mundo

Como ele colocou de maneira bem eloquente, nós seres humanos somos todos "tortured monkeys in hell" e faz muito bem entender as causas desse sofrimento coletivo (spoiler: é o capitalismo, bicho!), inventar o futuro e sair de vez dessa bad generalizada.

Mas tem uma fofoquinha de bastidores que é a seguinte: o tio Mark se distraiu enquanto escrevia sobre o comunismo ácido com um outro projeto sobre canções de amor (por isso o interlúdio romântico uwu. Agora toca DNA, por favor!). 

Não é super coerente com o projeto estético do BTS? Não?! Espero convencer vocês com essa série.

Agora já deu, cansei. Próximo post sobre é sobre o modernismo pulp. 

Tchau! Tchau!



Bibliografia básica (todos estão disponíveis naquele site soviético russo bapho que ajuda, nós pobres e fudidos, a não dar dinheiro para as editoras fds capitalistas sem vergonha):

Capitalist Realism: Is There No Alternative?. Winchester: Zero Books, 2009. 

Ghosts of My Life: Writings on Depression, Hauntology and Lost Futures. Winchester: Zero Books, 2014. 

Post-Punk Then and Now (editor, with Gavin Butt and Kodwo Eshun). London: Repeater Books, 2016. 

The Weird and the Eerie. London: Repeater Books, 2017. 

k-punk: The Collected and Unpublished Writings of Mark Fisher (2004–2016) (edited by Darren Ambrose, foreword by Simon Reynolds). London: Repeater Books, 2018.

Postcapitalist Desire: The Final Lectures (edited and with an introduction by Matt Colquhoun). London: Repeater Books, 2020. 


*sim, tô ligada que a BigHit tinha subsídio do governo. Fisher amaria que o estado sul-coreano dá dinheiro para fomentar o soft power. era esse o comunismo que ele queria hahaha.

** pecado! mas quem ri por último, ri melhor: a visual line tem os dois caras considerados os mais lindos do mundo.

*** gente tudo conspira a favor do Fisher ARMY: Mark E. Smith era pisciano assim como o Yoongi! Mais evidências para o argumento, favor olhar isso aqui e isso aqui. Também acho que Daegu e Manchester tem a mesma vibe: como cidades polos da manufatura, os fantasmas das vidas arrasadas pelo capitalismo industrial assombram a cidade criando ressentimentos políticos, sendo que a situação só piorou com a desindustrialização. Mas esse post explicando isso aí vai ficar para outro dia, hehe.

segunda-feira, 7 de junho de 2021

discos que me fizeram acordar pra vida

aproveitando a deixa dada pelos BTSs que me despertaram em 2021, quero compartilhar com vocês os discos que me fizeram acordar pra vida quando eu estava numa bad bizarra. para encurtar uma história longa, os anos de 2013 a 2020 foram muito difíceis pra mim (pra todo mundo, literalmente, mas esse blógue é meu e então eu posso ser narcisista SIM!). e como eu sempre fui uma pessoa viciada em música pop, nesses anos eu meio que escapei completamente do contemporâneo e entrei numa viagem esquisita, anacrônica e até meio esquizofrênica. basicamente entrei num buraco negro desprovido de deleites sônicos escapistas. eu só escutava música SÉRIA, DE QUALIDADE, DE PREFERÊNCIA NACIONAL, e só as gravadas antes de 1979.

o início dessa história esquisita começa com o meu envolvimento, assim que entrei na universidade em 2014, com um jovem revolucionário, adorniano PRA CARALHO que me fez entrar pra seita "música pop é um lixo, vamos só escutar Geraldo Vandré e Stockhausen". olha, eu não tenho nenhum problema com o Stockhausen, até gosto, afinal, já fui viciada em Neu! e Can e Neubauten e tive uma fase meio brega de escutar música industrial quando eu tinha 16 anos. nada me choca, ou melhor, se me chocar aí que é bom. agora, cá entre nós, eu tenho sérios problemas com o Vandré sim. não gosto, blergh. mas, de volta à história.

enfim, acho que eu estava muito apaixonada e, portanto, muito suscetível a ser trouxa e passei um pano danado para o meu príncipe comunista e deixava ele ditar o que era certo ou não de se ler ou de se escutar, ou de até mesmo de se assistir. claro que ninguém aguenta viver desse jeito e eu chegava a fazer playlists escondidas pra ouvir no estágio porque eu só queria escutar um smiths, uma kate bush em paz, sem ter que me justificar o tempo todo*. 

bom, sorrateiramente eu dava uma olhada no site da Dazed Magazine e tinha algumas iluminações, alguns flashes de cor no deserto escuro e frio que era o meu envolvimento com o pop do séc. XXI até então. momentos arrebatadores que me puxavam para o mundo real em toda a sua glória e sujeira e beleza. outras descobertas musicais, eu conseguia achar em um blógue ou outro de discos abandonados pelo fluxo da história e aí sim, me sentia eu mesma novamente. 

acho que a moral dessa história toda é: crianças, não entrem na universidade, só da merda. 

MENTIRA!!! ALERTA DE PARÓDIA, SARCASMO, IRONIA!!!!

é óbvio que é o seguinte: façam terapia, busquem se conhecer para que ninguém venha e te diga o que você deve ser e acabe te tirando a vontade de viver. 

hoje posso dizer que estou bem, mas não tem final feliz (ainda bem! a gente terminou, ufa!) tanto porque a vida não funciona de maneira teleológica e a Felicidade© não existe. o que existe são só momentos felizes instantâneos intercalados aos momentos lixos que inevitavelmente vão acontecer e assim caminha a humanidade. ainda tô aprendendo que a jornada é mais gostosa do que o ponto final dela. mas, eu espero com esse post compartilhar alguns desses pontos de luz e alegria (na forma de músicas pop) que tive ao longo desses anos difíceis. 

allons-y!


Rihanna - ANTi (2016)

esse disco foi um choque pra mim. eu conheci por meio da revista Dazed e fiquei só nele durante meses. eu não conseguia acreditar que um álbum pop podia ter qualidade e coerência total. sim, eu pensava que só o rock tinha a primazia do álbum-discurso e sim, isso é bem escroto de se pensar. lembrem-se: estava mergulhada no anacronismo elitista que se dizia passar por anticapitalista, mas que no fundo era só recalque. 

me perdoem. 



Patife Band - Corredor Polonês (1987)

esse faz parte daqueles discos que eu 'achei' naqueles saudosos blógues, aahn, de compartilhamento de músicas (faixa grátis). eu amo pós-punk e esta é uma obra prima da variante brasileira e se tornou uns dos meus discos favoritos. bônus: quando comecei a cantarolar algumas das músicas enquanto fazia trabalhos domésticos pela casa ou cozinhava, eu irritava o meu ex profundamente porque ele acha o Paulo Barnabé um babaca. ah, as pequenas rebeliões! ponto pras meninas!




Frank Ocean - blonde (2016)

esse aí acabou comigo. em 2011, channel orange era um disco que eu escutava muito, mas daí o Frank sumiu e me esqueci dele. quando a Dazed fez uma matéria com as influências do disco eu simplesmente TINHA que escutá-lo. me quebrou toda e me refez. sobrevivi 2016 por causa dele. 



Mitski - Puberty 2 (2016)

nossa, agora tô reparando que foi em 2016 que eu acordei pra vida. huh, que coisa não. enfim, eu fiquei viciada nesse disco por tais motivos: 1. quando eu era adolescente eu meio que fazia cosplay de riot grrrl, e esse disco é a versão atualizada dessa energia e 2. aviso: é muito ressentido, e 2016 foi o ano que o ressentimento ganhou. Happy é um hino.





Skepta - Konnichiwa (2016)

grime! grime! grime! meu estilo favorito e a melhor forma musical que surgiu no século XXI na minha humilde opinião (aguardando ansiouser o trio Suga/RM/J-hope inventar um estilo novo para desbancar o grime do pódio do meu coração 💣💥💖 depressa pfvr, lindos!). eu sempre fui stan da Boy Better Know e o Skepta é um gênio. esse disco é foda. é essa a explicação.


(não tinha um vídeo decente de 'shutdown', coloquei o rei sendo coroado com a mamis dele do lado <3)


The War on Drugs - A Deeper Understanding (2017)

eu não me lembro muito de 2017 pra ser bem honesta. acho que foi o ano em que prestei a prova do mestrado, então tá explicado. eu me lembro que eu escutava a BBC Radio 6 pra me distrair e tentar ficar a par das *tendências* e quando descobri essa música fui imediatamente escutar o álbum. eu gostei porque essa banda tem tudo para eu odiá-la: não gosto desse tipo de voz que o vocalista tem e eles parecem beber muito dessa fonte de Grandes Compositores Estadunidenses™, à la Bruce Springsteen, e tá aí um cara que eu não suporto. mas de alguma forma funciona neste caso específico e eu amo esta música em particular, queria que fosse eterna. muito esquisito. 2017 foi esquisito.


SOPHIE - Oil of Every Pearl's Un-Insides (2018)

Sophie foi a melhor coisa de 2018. eu acho que esse disco é obrigatório e se extraterrestres aterrissassem agora eu ia presenteá-los com esta obra como prova de que a humanidade tem jeito e a gente é muito foda quando a gente quer. fiquei muito mal com a sua trágica morte esse ano. tá aí uma artista que tinha muito pra fazer e dizer ainda (imagina uma collab entre ela e o trio RM/Suga/J-hope???). rest in power, comrade <3


100 gecs - 1000 gecs (2019)

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA !!!!!

eu fui instantaneamente atraída por uma propaganda desvelada matéria da Dazed que dizia que 'money machine' do 100 gecs foi eleita a pior música de 2019. o que me fez clicar instantaneamente no vídeo que acompanhava o texto. olha, seguramente devo ter escutado essa música umas dez vezes seguidas quando quando li a tal matéria. o meu cérebro entrou em curto-circuito e eu sentia que alguma coisa na minha vida precisava mudar, mas não sabia o quê. será que eu tinha que me livrar de um atraso de vida de 82kg??? será????? 👀


Perfume Genius - set my heart on fire immediately (2020)


salto quântico no tempo. 2020: fascismo, pandemia, crise ambiental, caos total. o relacionamento com o ex terminou em maio desse mesmo ano e eu voltei para a casa de mamis e papis pra lamber as feridas. mamis me deu de presente o spotify como um gesto de libertação, porque eu tinha esse discurso de que eu não ia contribuir com o capitalismo de plataforma, não senhor, onde já se viu, que absurdo, blá blá blá. (essa atitude ainda era uma tentativa desesperada de provar como eu era pura e ética para o meu Superego Leninista manifestado pelo tal ex adorniano, não tinha nada a ver com uma posição política bem fundamentada). Os algoritmos me recomendaram essa obra prima e foi o disco que eu mais ouvi no ano passado. é o Astral Weeks do séc. XXI, na minha humilde opinião. 


BREVE INTERREGNO DE HOMENAGEM À PC MUSIC

(que anda me acordando pra vida até hoje)






CHARLI XCX - VROOM VROOM




💥💥 NÃO ACABOU AINDA !!!! 💥💥


INTERROMPEMOS A PROGRAMAÇÃO PARA A PROPAGANDA ARMYISTA OBRIGATÓRIA**




agora acabou, beijos e fui 😻


* o mapa astral da criatura era inteiro em aquário. insuportável. acho que ele é um revolucionário de fato ou o anticristo. minha aposta é nesta última opção aí.

** estou seriamente aventando a possibilidade de, a partir deste post, sempre encerrar com vídeos do BTS pra alegrar vossos corações. já souberam das boas novas??? BTS EXISTE!!!!! 💜💖💜💗

quinta-feira, 27 de maio de 2021

eu (ou)vi o som do amor ou como eu me apaixonei por BTS

como resistir a essas criaturas? impossível! da esquerda pra direita: Jimin, J-hope, Jin, V, RM, JK e Suga.

quando a Clara me mandou escutar BTS pra ser mais feliz eu o fiz imediatamente porque 1. ela nunca está errada e 2. tinha se dado ao trabalho de me mandar uma playlist curada por ela mesma e quem sou eu para desrespeitá-la desse jeito e não dar pelo menos uma chance aos garotos. dei play. 

quando escutei os primeiros acordes de "Outro: Ego" meu coração disparou e deu aquele friozinho na barriga gostoso igual àquele que dá ao andar na montanha-russa ou quando nos deparamos com arte de primeira. dava pra sentir a serotonina, dopamina ou o que seja subindo na cabeça e fui tomada por uma alegria imensa e oceânica. pronto, o estrago tava feito. podem me incluir no A.R.M.Y porque agora eu sou cadelinha desses 7 meninos-homens maravilhosos. nunca fui tão feliz!*

eu espero com este post articular alguns pensamentos que eu tive ao mergulhar no universo lindo e maravilhoso dos BTS nesta última semana. lá vai!

bom, primeiramente, é muito bom. do ponto de vista musical, cada nota, cada timbre, cada sílaba é articulada e executada perfeitamente e nos dá uma experiência sonora tão sensual e rica que não encontramos por aí com facilidade nessa era desértica de música algorítmica. eu diria até que o som do BTS é uma mistura perfeita e irresistível entre o orgânico e inorgânico, entre o analógico e o digital. dá pra sentir o suor, o esforço humano em cada nota (e em cada passo de dança também). não é um trabalho feito por I.A. e jamais conseguirá ser (re)produzido por máquinas. é música demasiadamente humana feita para humanos. sendo que esses humanos criadores têm recursos infinitos e talento de sobra para criar tais obras super-humanas, é claro. agora, em termos de conteúdo, aaah! é altamente potente, sedutor, alegre... tem de tudo aí, letras sobre amor, sobre as angústias millennials de se viver no fim do fim da história, a luta contra o sentimento de não prestar pra nada nesse capetalismo infernal, júbilo escapista, ode à amizade, etc... de fato, é um universo mesmo. tem tudo pra todo mundo.

o arrebatamento que BTS nos proporciona é o encontro perfeito entre apolo e dionísio: a forma precisa, meticulosa encontra um conteúdo exuberante, intenso. não sei dizer quem é o meu favorito em cada line, todos são insanamente talentosos e competentes. mas se alguém me perguntar hoje, a minha resposta é: o suga é o meu favorito da rap line e o v, da vocal line**. todo mundo dança bem, não dá pra escolher um, desculpa.

eu queria ter um amigo neurologista que tirasse uma chapa do meu cérebro pré e pós-BTS. tenho certeza que os meus circuitos neurais agora são outros -- essa música mexe com o nosso hardware e software. Espinosa daria seu selo de aprovação porque ô coisa boa de escutar, viu! Só traz afetos alegres e espanta os tristes... BTS contra os maus encontros e a deterioração do corpo!

toda essa experiência me fez pensar em um ensaio da Ellen Willis ("Beginning to See the Light" contido no livro epônimo), sobre a contradição de ser uma feminista e gostar de rock (machista), que eu acho que se aplica ao BTS no seguinte sentido: sim, eles são produtos de uma indústria cultural hiper-capitalista tenebrosa; mas, de alguma forma eles conseguem quebrar com esse tipo de pop-neoliberal besta, eles rompem totalmente o consenso do realismo capitalista. "música tímida me faz me sentir tímida" ela disse; a subversão e diversão proporcionada pelo rock a faziam questionar e se rebelar contra o establishment, isto é, a própria contradição do rock subsidiava sua ação política, dava munição para lutar contra as opressões. BTS é isso, gente! a alegria, a excelência e a força do BTS reside nas contradições que perpassam sua música, no entanto, eles conseguem ir além delas e nos levam junto, ainda bem.

BTS é a flor no asfalto, é o grito de  "não!" para esse sistema corrupto e corruptor e é o "sim!" para o amor, a solidariedade e para esse novo mundo que, não se enganem, vai nascer. vai nascer porque ele já está , eu (ou)vi.

tem uma história muito fofa do DJ John Peel (BBC Radio 1) que conta que ele chorou quando ouviu "Teenage Kicks" do The Undertones pela primeira vez e a partir daquele momento, tocava duas vezes seguidas em todo programa. além de gostar da música, Peel admirava o fato daqueles meninos produzirem algo tão sublime em meio a tanta destruição e violência. chegava a ser subversivo o fato de que os Undertones produziram essa lindeza em uma Irlanda do Norte ocupada pelo exército britânico, com seus amigos morrendo ou matando, onde andar na rua não era seguro pra ninguém. nada te garantia uma segurança ou te protegeria de uma realidade em que você poderia ser sequestrado pelo exército ou morto por estar no lugar errado na hora errada (i.e. estar completamente à mercê de poderes coloniais arbitrários). é, soa terrivelmente familiar, né***. querer ser apenas um jovem e ir na casa do seu amorzinho para passar um tempo, apenas se deixar ser, diante daquelas circunstâncias horríveis, além de ser um desejo legítimo, era um exercício de prefiguração: não seria lindo um mundo onde todos**** os jovens pudessem estar seguros e em paz ao se encontrarem com o seu amorzinho? não terem nada pra fazer a não ser falar no telefone, beijar e dançar? é esse o mundo que eu quero. 

a OMS afirmou que a pandemia provoca(rá) um trauma tão grande quanto o da segunda guerra mundial. acho que as artes vão ter um trabalhão para elaborar tudo isso aí, mas uma coisa eu tenho certeza: os BTS vão produzir o álbum do século (pode vir! meu corpo está pronto!).

quando RM canta que ele quer nos consolar e nos dar força pra continuar, é muito difícil se render e cair no cinismo, achar que música pop não importa, que é tudo lixo. eu não consigo me entregar ao derrotismo -- eu realmente acredito nele e nos BTS também, dá pra sentir a sinceridade, o compromisso, o amor que eles têm pela música, pelos fãs. 

BTS destrói a presente irrealidade decrépita e cria outros mundos possíveis. depois desse post apaixonado é óbvio que estou falando pra largar tudo e ir escutar agora. aviso: não tem mais volta, mas, sinceramente, você jamais vai querer estar num mundo onde os BTS não te afetem.

a seguir o rol dos meus vídeos favoritos <3 <3 <3 <3









AVISO !!!! esse mv precisa ser visto com um desfibrilador do lado:




* só tive tal arrebatamento quando escutei grime, trap e 100 gecs pela primeira vez.

** atenção!!!! essa opinião não reflete, cof cof, os meus gostos na categoria "homens perfeitos". em tal quesito, eu sou namorada do JK e do RM [EDIT 07/06/2021: Teteco (V) virou o meu bias e o Yoongi (Suga) é o meu wrecker]. 

*** eu ainda não conseguir pensar direito sobre isso, mas baby da gal me dá essa mesma impressão que teenage kicks me dá. a dissonância cognitiva entre uma música bela e as condições de produção horríveis que, de alguma forma, penetram essa beleza e deixam alguns rastros. fica um post para outro dia.

**** aqui eu me inscrevo naquela velha estrutura de sentimento socialista internacionalista que quer liberdade, autonomia e dignidade incondicionais e irrestritas para TODO o mundo sem exceção.

músicas do BTS como conceitos de Mark Fisher: sim, eu estou doida

Imagens reais de um simpósio sobre como BTS destruiu o pop imperialista. Universidade de Goldsmiths, Londres, 2022. Desde que eu cai no bura...